Alguém está de olho em você: bem-vindo à economia da vigilância!

Autor: Martin Hirst, Professor Associado de Jornalismo & Mídia, Universidade de Deakin.

Publicado originalmente no The Conversation em 26 de julho de 2013. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logoThe Conversation


Tudo que o denunciante fugitivo Edward Snowden revelou sobre a rede de espionagem global dos EUA, PRISM, deverria fazer você ficar alerta e alarmado. Suas revelações mostram que nós estamos claramente vivendo em uma sociedade de vigilância bem-estabelecida. Mas também revela mais que isto: a vigilância está no coração da economia global digital, também.

Um documento revelou que em 2001 a companhia telefônica australiana Telstra assinou um acordo para permitir que agências de espionagem dos EUA acessassem dados sobre seus clientes estadunidenses. Porém, de acordo com o acordo, a Telstra não tem permissão de deixar outros governos acessarem os mesmos dados.

Em resposta, a Telstra emitiu uma breve declaração dizendo apenas que o acordorefeltia suas obrigações contratuais da época, e a revelação recebeu apenas cobertura de mídia limitada.

A sociedade da vigilância

Tudo que você faz é sujeito a vigilância. Como Robert O’Harrow Jr explica, “não há onde se esconder”. Nós estamos sob observação constante, tanto fisicamente quanto eletronicamente. Vigilância é o novo normal. Está em todo lugar e sua ubiquidade faz-nos tomá-la como garantida.

Sob as circunstâncias, o velho adágio: “se você não fez nada errado, você não tem nada a temer”, do Estado da vigilância, não é mais verdadeiro.

Este argumento é baseado na crença de que, além da função limitada de proteger o interesse público (digamos, através da polícia), o Estado não está interessado no que você faz, com quem você fala, onde você vai, o que você compra, ou no que você crê.

Nós não vivemos mais neste mundo. O número de agências governamentais tendo interesse em informação sobre nós cresceu como erva daninha. O Estado de segurança nacional estendeu as funções de policiamento do governo para todas as áreas da vida.

Agências de bem-estar governamentais foram pegas espiando os beneficiários; mães solteiras e pensionistas. No Reino Unido, autoridades educacionais seguiram uma família em um esforço para capturá-los fraudulentamente matriculando crianças “fora da área”. Na Austrália, um conselho local acessou dados pessoais de uso de telefone dos moradores para rastrear pets não-registrados.

Se você ainda alimenta dúvidas persistentes de que vivemos em uma sociedade de vigilância total, agora é a hora de cair na real e dar uma olhada pra fora.

Nós estamos sob quase-constante vigilância em vídeo. Tente andar através de alguma cidade de tamanho razoável sem ser pego em câmeras de monitoramento. É impossível; você não pode nem se esquivar para dentro e fora de lojas, ou usar passagens de pedestre subterrâneas. Há milhares de câmeras monitoradas pelo Estado olhando o tráfego, transporte público e fluxos de pedestres; milhares de câmeras privadas também estão monitorando cada transação que fazemos em bancos, lojas, bares, lobbies de hoteis, restaurantes e supermercados.

Estas gravações também estão disponíveis para as autoridadesm. Tudo que eles têm de fazer é solicitar. Em alguns casos, eles nem precisam solicitar. Quando a polícia de Boston começou a caça aos plantadores das bombas na maratona, eles apreenderam fitas de vigilância de 200 negócios na Rua Boylston. Dezenas de milhares de civis que gravaram cenas felizes do evento em seus telefones entregaram suas imagens voluntariamente.

Você poderá argumentar que foi um bom uso de “jornalismo cidadão”, mas também houve um lado sombrio. No vácuo informativo criado pela ausência de um claro suspeito pelas explosões das bombas, “netizens” das mídias sociais tomaram a matéria em suas próprias mãos. Dentro de horas, detetives amadores começaram a postar imagens de jovens pardos com mochilas, sugerindo que eles poderiam ser os plantadores das bombas.

Isto é perigoso, particularmente em uma sociedade com uma cultura vigilante forte. Foi puramente sorte que nenhum dos rapazes falsamente acusados tenha sido fisicamente alvo de multidões raivosas buscando vingança.

Há outra razão para se preocupar. Nós não temos de enfrentar apenas a ubíqua vigilância física através de milhares de câmeras de vigilância. No mundo dos “grandes dados” não há escapatória. Nossas impressões digitais… digitais… estão sendo coletadas dia-e-noite e estão sendo armazenadas, organizadas, filtradas, arquivadas, e manipuladas. Nós somos todos alvos potenciais para a vigilância do Estado.

Um exemplo saliente neste caso são as centenas de pessoas que podem conhecer Edward Snowden ou terem tido contato com ele nos últimos 2 ou 3 anos. Qualquer um que já tenha, alguma vez, trocado um e-mail ou mensagem de texto com Snowden, está agora capturado numa rede de arrasto contendo bilhões de Bytes de informação.

Pessoas que “não têm nada a temer” estão agora no radar da comunidade de inteligência; só pro caso de 1 inócua mensagem revelar um segredo que possa ajudar o FBI a capturar o Snowden. Eles podem ser pegos nisto por muitos anos, particularmente se Snowden for retornado para os EUA e enfrentar um julgamento.

Quão amplamente essa rede será jogada? é difícil de dizer, mas as capacidades envolvidas aqui significam que qualquer um com até mesmo 6 graus de separação do alvo pode ser digitalmente revistada.

A última leva das informações do estoque do Snowden é talvez a mais preocupante, pois revela a extensão à qual a economia digital e o Estado de vigilância estão simbioticamente conectados.

A economia da vigilância

Dos documentos lançados pelo Snowden, parece claro que muitas grandes companhias de alta-tecnologia têm estado secretamente cooperando com a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) para fazer abertos nossos e-mails e conversações em vídeo, juntamente com qualquer coisa que escolhermos armazenar na “nuvem”. Google, Microsoft e outras companhias não negaram que estão cooperando com o FBI, a NSA, e outras agências de espionagem. O argumento deles, como o da Telstra, é que este é o preço de fazer negócios.

De acordo com uma declaração da Microsoft, a companhia tem de cumprir com requisições legais do aparato de segurança. O problema é que n
ão há revelações públicas
quando tais requisições são feitas. Elas são secretas e não são sujeitas a nenhum escrutínio.

Também parece que ferramentas de criptografia podem estar comprometidas. Realmente não há onde se esconder, mesmo que você realmente não queira ser encontrado.

A Microsoft diz que só age em requisições ordenadas em corte, e que não liberou chaves criptográficas. Mas analistas dizem que isto é apenas meia verdade, e a Microsoft mesmo admite que ela não tem permissão de divulgar as outras maneiras pelas quais ela coopera com agências de aplicação de leis, e de segurança.

Vigilância é “grandes dados”, e grandes dados, grandes negócios. A economia da vigilância põe transações de informação em seu núcelo e quando algo está saindo do mercado, o capitalismo se adaptará. A última adaptação sistêmica é para empregar novas formas de vigiar os consumidores e então tornar os dados coletados em algo que alguma outra pessoa está desejosa de comprar.

O valor dos grandes dados tem sido comparado com o boom do petróleo ou “garimpagem de ouro” em termos de potencial de lucratividade. Os números são impressionantes: 50 bilhões de dispositivos conectados à Internet até o fim desta década; são tantos dados disponíveis para serem minerados que nem existe ainda uma unidade de medida para descrevê-los. Tantas conexões estão disponíveis para serem grampeadas, correlacionadas, combadas, combinadas, e vendidas, que qualquer tentativa de visualizar as conexões pareceria com um mapa de junções espaguético do universo, com cada planeta, estrela e cometa conectados a todos os outros objetos. O valor deste mercado é atualmente estimado como sendo superior a A$39 bilhões anualmente [(mais de R$81 bilhões na data de publicação do artigo original, em 2013)] e crescendo a cerca de 9% ao ano, de acordo com analistas o IDC.

Análise de grandes dados (uma forma polida de falar sobre vigilância) é agora central para a economia global. Conforme mais dados comerciais são coletados, governos nervosos e com consciência de segurança vão encontrar mais formas de minerá-los para propósitos políticos também.

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