Baía de Guanabara poluída: precisa-se de inovação no tratamento de esgoto

Autora: Daniele Lantagne, Professora Assistente de Engenharia Civil e Ambiental na Universidade de Tufts.

Publicado originalmente no The Conversation. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logoThe Conversation


Nos meses até as Olimpíadas do Rio, cresceu o conhecimento de que o Brasil não atendeu às metas de qualidade da água definidas em sua candidatura, e que os atletas poderiam estar nadando, velejando, remando ou canoando em águas contaminadas por esgoto humano não-tratado. Artigos jornalísticos discutiram a má qualidade da água nas águas da competição, riscos à saúde dos atletas, e as razões pelas quais os US$ 4 bilhões requisitados para reduzir grandemente o fluxo de esgoto não-tratado adentrando a Baía de Guanabara não se materializaram.

Um tema comum destes artigos foi o choque: que o esgoto estava sendo despejado sem tratamento direto no meio-ambiente, que a qualidade da água era tão ruim, e que os atletas de elite poderiam arriscar suas saúdes para competir nas Olimpíadas.

Estes artigos são precisos: há riscos de saúde para os atletas Olímpicos, e ter atletas competindo em água contaminada com esgoto humano é repreensível. Nos próximos poucos dias ou semanas, nós iremos descobrir quais consequências podem haver para esse compromisso descumprido.

Porém, o que falta em muitos artigos, mas não todos, que estão fazendo a cobertura, é que a situação no Rio não é apenas não-anormal, ela é comum. Atualmente, cerca de um terço da população global (2,4 bilhões de pessoasl) não tem acesso a instalações sanitárias, como uma latrina ou sistema de esgoto, incluindo 946 milhões de pessoas que não têm instalação algumaz e defecam ao ar livre. Outros 2,1 bilhões de residentes urbanos ao redor do mundo usam instalações sanitárias melhoradas, mas que não descartam com segurança os dejetos humanos, incluindo 1,5 bilhões que usam sistemas de esgoto sem tratamento.

Os problemas nas águas do Rio de Janeiro também destacam as limitações de depender de sistemas centralizados de tratamento de esgoto. Para atender às necessidades de bilhões de pessoas que sofrem as consequências na saúde de esgoto humano não-tratado todos os dias, nós precisamos de inovações tecnológicas e novas abordagens de provisões sanitárias.

Variações no tratamento ao redor do mundo

Os estadunidenses podem se surpreender ao constatarem como o tratamento de esgoto atual foi introduzido.

O tratamento de esgoto nos EUA tem sua origem nas inovações de engenharia do fim do século XIX e início do século XX. Durante este tempo, as cidades nos EUA instalaram sistemas de água que proveram suprimentos de água encanados, tratados e seguros para os lares. Esta provisão é creditada com reduções em mortandade infantil e a eliminação de doenças epidêmicas como cólera e febre tifoide.

Com a instalação desses suprimentos de água, veio a necessidade de eliminação de esgoto doméstico. Sistemas de esgoto, onde a água dispensada da casa é centralmente coletada e eliminada, foram inicialmente instaladas no começo dos anos 1900. Por 1940, metade da população com esgotos também tinha algum tipo de tratamento de água antes da eliminação. Em áreas mais rurais, tanques sépticos foram instalados.

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A plnata de tratamento de esgoto de Deer Island foi a peça-central de um projeto para limpar a Enseada de Boston. Não esteve plenamente operativa até o ano 2000.
Doc Searls/flickr, CC BY

Com o passar do tempo, o tratamento e descarte no ambiente melhoraram. A Enseada de Boston, por exemplo, era conhecida como uma das mais sujas dos EUA. A peça central do projeto de limpeza de US$3,8 bilhões é a planta de tratamento de esgoto de Deer Island, que tornou-se totalmente operativa no ano 2000, trata o esgoto para mais de 2,5 milhões de pessoas, descarta a água a mais de 15 Km dentro do oceano ao invés da Ensada de Boston, e melhorou amplamente a qualidade da água da Enseada de Boston. No ano 2000, na América do Norte, cerca de 90% do esgoto era tratado antes do descarte.

A situação dos EUA, infelizmente, não é a norma.

No ano 2000, a porcentagem de esgoto urbano coletado através de encanamentos e tratados antes do descarte foi de apenas 66% para a Europa, 35% para a Ásia, 14% para a América Latina e Caribe, e menos de 1% para a África.

No Rio, apenas 12% do esgoto do sistema encanado era tratado quando a cidade recebeu a designação de sede das Olimpíadas; este número está estimado como 65% hoje. Enquanto isto é uma melhora impressionante, ainda está abaixo dos 80% prometidos.

Gráfico - porcentagem de esgoto tratado mundialmente

Os efeitos, para a saúde, de exposição a esgoto humano são múltiplos, incluindo diarréia, a causa de 760.000 mortes infantis por ano ao redor do mundo, e nanismo, que impacta 162 milhões de crianças abaixo de 5 anos pelo mundo todo. Devido a essas consequências na saúde, em 2007, o saneamento básico foi eleito o maior avanço médico desde 1840 pelos leitores do prestigioso British Medical Journal.

Inovações técnicas e sociais

Mas reverter estas ameaças à saúde vai requerer que os países tomem um caminho diferente daquele que os EUA tomou durante o século XX.

O desafio primário de melhorar a situação atual de saneamento mundialmente é que as três soluções de saneamento existentes – sistemas de esgoto, tanques sépticos, e latrinas – têm limitações.

Sistemas de esgoto são caros de instalar, e são sistemas fixos que carecem da habilidade de expandirem-se rapidamente com o crescimento populacional; tanques sépticos requerem terras com solos apropriados; e latrinas requerem espaço, enchem-se rapidamente e não tratam o esgoto.

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Por conta de instalar plantas de tratamento de esgoto centralizado ser caro, e as plantas de tratamento não expandirem-se rapidamente para compatibilizarem-se com o crescimento populacional, métodos alternativos como negócios de coleta regular de esgoto são necessários.
gtzecosan/flickr, CC BY

Por isto, há necessidade de novas tecnologias de saneamento que isolem os ejetos humanos do meio ambiente e providam opções para o segmento mais rapidamente crescente da população mundial: aqueles vivendo em mega-cidades e favelas urbanas altamente populosas. Há pesquisa e programação ativas e em progresso no desenvolvimento de abordagens e tecnologias alternativas, alguns exemplos os quais incluem:

  • Estratégias de mobilização da comunidade usando educação para encorajar as comunidades a eliminar completamente a defecação a céu aberto, ao ativar o desejo da comunidade por mudança coletiva. Estes programas podem encorajar o desenvolvimento local de soluções de saneamento, e certificar as comunidades como “livres de defecação a céu aberto”.
  • Abordagens baseadas em sistemas onde as instalações de sanemanto são construídas e franquiadas por operadores locais que cobram uma taxa por-uso ou são instaladas em instituições comunitárias. Os dejetos são coletados e convertidos em uma instalação centralizada, para fertilizante orgânico, energia renovável e comida animal baseada em insetos.
  • Serviços de empresas sociais onde toaletes baseados em containers são instalados em casas sem custo, e uma taxa mensal é tributada para coleta dos dejetos. Os dejetos então são transformados em tijolinhos e vendidos como uma alternativa limpa ao carvão vegetal.

Enquanto há avanços promissores, muitos são atualmente de pequena escala, e mais trabalho é necessário para alcançar os 2,5 bilhões de pessoas sem acesso a nenhuma instalação sanitária melhorada, e adicionais 2,1 bilhões de residentes ubanos usando instalações sanitárias melhoradas que não descartam com segurança os dejetos humanos.

Conforme a Olimpíada do Rio procede, e nós esperamos que a saúde e segurança dos atletas de elite competindo nas águas contamidas não sofram, consideremos também – e trabalhemos para melhorar as condições de saneamento para – os bilhões de pessoas ao redor do muno que sofrem diariamente as consequÇencias para a saúde de viver em um ambiente contaminado com dejetos humanos.

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