Olimpíadas: a glória de sediá-las corre o risco de ser a maior perdedora

Autor: John Rennie Short, Professor na Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland, Condado de Baltimore.

Publicado originalmente no The Conversation em 4 de agosto de 2016. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logo The Conversation


A abertura das Olimpíadas de Verão assinalam o começo do evento mais televisionado do planeta.

Neste ano, tais como nos anteriores, as Olimpíadas vão capturar atenção global conforme assistirmos atletas prodigiosos competirem nos maiores níveis, e nossas televisões forem preenchidas com vitórias em momentos críticos, feitos espetaculares de atletismo e força, empenhos individuais, esforços de times, falhas angustiantes e sucessos emocionantes.

Mas o Rio também promete outro conjunto de histórias. Irão estes jogos, tais como tantos outros na memória recente, transcender os problemas bem-publicizados da preparação, e prover um espetáculo de tanto sucesso que esqueceremos todos os problemas?

Ou irão os problemas profundamente assentados reforçar a contra-narrativa emergente: de que os jogos são um mal-uso espetacular de dinheiro, executado por uma organização obsoleta dedicada a auto-enriquecimento e um modelo falho de eventos de esportes movendo-se inexoravelmente à falha e ignonímia? O Rio pode ter os jogos que serão o marco deste novo enquadramento narrativo.

Escrutínio ampliado

Houveram Jogos Olímpicos de Verão todos os anos desde 1896, exceto em 1916, 1940 e 1944, que foram cancelados devido à guerra. Através dos ano, os Jogos Olímpicos ficaram maiores e mais globais. Em 1896, apenas 241 participantes competiram de 14 países. Em 2012, foram 10.769 atletas de 205 países competindo em Londres.

Apenas dois jogos destacados fundamentalmente mudaram como as Olimpíadas eram percebidas e produzidas.

Berlim em 1936 marcou o começo dos jogos como produção global. Os nazistas, sempre intensamente conscientes do poder e significância do espetáculo, deram aos Jogos Olímpicos de 1936 a primeira cobertura multimídia com transmissão televisiva, transmissões de rádios ondas-curtas, e um filme oficial. O cinematografista interno dos nazistas, o imensamento prodigioso Riefenstahl, fez um tributo à fisicalidade do evento no filme “Olympia,” que foi lançado em 1938.

Os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, capturados no filme “Olympia”, do Leni Reifenstahl, marcaram os primeiros jogos transmitidos globalmente.

Os jogos de Los Angeles em 1984, organizados após o desastre financeiro de Montreal em 1976, marcaram o colapso do velho modelo de financiamento e inauguraram a corporização dos jogos quando o comitê organizador local assinou contratos com 34 patrocinadores corporativos comerciais. Patrocínio corporativo, junto de direitos de transmissão, agora provêem um fluxo constante de dinheiro para dentro dos cofres do COI.

Estes dois jogos divisores-de-águas proclamaram o começo da cobertura global de mídia em Berlim, e de patrocínio corporativo dos jogos em Los Angeles. Mas o tamanho crescente dos jogos, e a vasta cobertura global, também criaram problemas estruturais.

Conforme os Jogos Olímpicos do Rio abrem-se, um número destes problemas é particularmente ressoante.

Modelo de negócios falho

Iniquidade. O Comitê Olímpico Internacional (COI), estabelecido a princípio em 1894, sempre foi organizado em linhas elitistas, com falta de transparência e responsabilidade.

Ele era sediado na Suíça para evitar qualquer forma de regulamentação nacional. Os membros iniciais eram ricos, com títulos ou bem-conectados – de preferência os três. Hoje, membros do COI incluem o Príncipe Coroado Frederico da Dinamarca, Princesa Anne do Reino Unido, Príncipe Alberto de Mônaco, Sheik Ahmad Al-Fahad Al-Sabah do Kuwait, e não esqueçamos do Grande Duqueza de Luxemburgo e Princesa Nora de Liechtenstein.

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Sede do COI em Lausanne, Suíça.
diluvienne/flickr, CC BY-NC

Pouca atenção foi dada para as necessidades ou requerimentos dos atletas. O COI foi conscientemente isolado de qualquer processo eleitoral ou controle efetivo pelos atletas, e ainda assim esse comitê foi e continua sendo o principal corpo de governo dos Jogos Olímpicos. Cada membro pode viajar de primeira-classe ao redor do mundo, e recebe entre US$400 e US$900 por dia [nota do tradutor: na taxa de câmbio atual, seriam R$1264~R$2844/dia].

Em Beijing, faixas de rodagem especiais levaram velozmente os membros do COI em veículos de luxo com chauffeur através dos engarrafamentos. Enquanto iso, os atletas mesmo vivem em situações mais apertadas e são pagos bem pouco. Em outras palavras, os membros do COI têm um estilo de vida luxuoso financiado pelos explêndidos atletas que recebem apenas uma pequena parcela dos rendimentos.

Nos preparativos para os jogos no Rio, nós ouvimos histórias de atletas nadando em águas poluídas e vivendo em acomodações abaixo do padrão. Enquanto isto, os membros do COI continuam com seus estilos de vida de luxo subsidiado.

Cenário de pior-caso

Impacto misto nas cidades. O COI com frequência vende a ideia de sediar as Olimpíaas como uma força para o bem, e há os exemplos positivos de Barcelona e Sidney. Mas, para muitas cidades, sediar os Jogos Olímpicos significa fazer projetos caros onde os custos são sempre subestimados, e os benefícios sempre superestimados, e onde o legado consiste de instalações atléticas obsoletas.

O Rio apresenta o cenário de pior-caso de caros estouros de orçamento/esgotamento do tempo e infraestrutura inadequada.

Conforme o dinheiro é gasto no evento de duas semanas, favelados são expulsos de casa e serviços básicos para a maioria na cidade, como saneamento básico adequado, permanecem não-cumpridos. Quando o terreno é esvaziado para se fazer uma pista de golfe, um esporte de minoria no país e jogado apenas por uma pequena elite, nós não estamos no âmbito de re-desenvolvimento urbano progressivo.

A expulsão em larga-escala de quase meio milhão de pessoas em Beijing revelou os custos humanos. Mas o Brasil é uma sociedade mais aberta que a China, então podemos esperar por uma discussão mais aberta sobre o gastador espetáculo global sediado na cidade onde muitas pessoas são pobres, e permanecerão pobres após as Olimpíadas.

Doping. Então, há o escândalo do doping que vai estragar os jogos deste ano.

Os atletas têm tomado drogas aumentadoras de performance desde a primeira Olimpíada na Grécia antiga. Mas a escala industrial do doping pelo time da Rússia levanta sérias questões sobre a dedicação do COI a respeito de teste de drogas e punição adequada. Com a maioria do time de pistas e campos da Rússia agora banido, irá o Rio ser palco de uma discussão séria de doping e drogas nos Jogos Olímpicos? E irá a natureza de tomada de drogas generalizada com testes de drogas limitados significar que temos de presumir que as pessoas ganharam medalhas apenas temporariamente até provadas inocentes de tomada de droga?

Custos crescentes. Conforme os jogos tornam-se maiores, adicionando novos esportes e estendendo o número de competidores, os custos elevam-se.

Mas o modelo do COI é de fazer as cidades cobrirem todos os custos e tomar todos os riscos, enquanto eles controlam os lucros. O COI mantém este poder através do processo de candidatura, onde as cidades têm de competir para serem sedes. O arranjo favorece o COI já que força as cidades a tentar superar umas às outras..

Mas está começando a haver uma forte reação. Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 vão ter lugar em Beijing devido à Noruega ter abandonado o processo de candidatura e recusado as demandas do COI. E o Comitê Olímpico dos EUA abandonou a candidatura de Boston devido à ferrenha resistência de seus residentes.

Uma força para o bem?

Corrupção. Há cada vez mais evidências da continuada corrupção no COI. Em particular, o processo de candidatura, onde as cidades competem para sediar os próximos Jogos Olímpicos e os membros do COI têm de votar para definir a cidade sede, é cada vez mais tendente à corrupção devido a membros do COI venderem seus votos por dinheiro vivo, benefícios, e brindes infindáveis.

O COI tem há muito tempo se promovido como uma força do bem. Sua promoção de jogos mais verdes está agora minada pelo caso do Rio, com águas poluídas por esgoto cru.

Cidades onde há uma discussão democrática têm pouca probabilidade de sediarem os jogos, se os custos e benefícios reais forem tornados públicos. O resultado é um uso crescente de localidades em países autoritários e totalitários. Com cada Beijing e Sochi, a conexão entre as Olimpíadas e progresso social é minado pela associação dos jogos com remoções de comunidades, destruição ambiental, abuso de trabalhadores e transgressão de direitos humanos. Cidades na China agora são favoritas para sediar as Olimpíadas, já que entregam jogos espetaculares sem qualquer resistência pública.

A carta do COI promove “princípios éticos fundamentais”, mas na prática ele torna o ouro de nosso apreço pelos esportes, grandes conquistas atléticas e agitação da competição, em escória de uma máquina-de-fazer-dinheiro inchada, corrupta e dedicada ao estilo de vida gastador financiado por companhias públicas e conglomerados de mídia, baseado nas habilidades de atletas pagos menos que o devido, e condenada por um público atento.

Nós amamos os jogos, mas isso é o bastante para nós fazermos vista-grossa aos mal-feitos de uma organização profundamene falha que está perdendo legitimidade e relevância? O que nós iremos ganhar das próximas semanas e após: o ouro ou a escória?

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