Não teria havido vergonha no Brasil desistir das Olimpíadas

Autora: Eleni Theodoraki, Reader na Escola de Festivais e Gerência de Eventos, Turismo e Línguas, Universidade Edinburgh Napier

Publicado originalmente no The Conversation em 8 de maio de 2014. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logo The Conversation


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Ex-presidente do Brasil, Lula, anunciando a candidatura do Rio 2016. Agência Brasil, CC BY-SA

A Copa do Mundo de 2014 no Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro estão tornando-se um acontecimento noticiado [(em 2014)], e não da forma que os organizadores poderiam gostar. Nós pudemos ver notícias sobre revoltas populares, falta de preparação, infraestrutura de baixa qualidade, e brasileiros reivindicando que estes custosos eventos sejam largados, enquanto encaram pobreza, inflação e crime.

Isto é típico do escrutínio da mídia, que segue os mega-eventos. Cada vez que um mega-evento surge, jornalistas em todo o mundo reportam o progresso da infraestrutura, organizadores corruptos, controles anti-corrupção, patrocínio, direitos humanos e medidas de segurança nacional.

Não é difícil explicar este interesse. As apostas são realmente altas. Os orçamentos são grandes, os interesses de negócios são globais, e a credibilidade informal da nação-sede sempre está em jogo.

E então, há a dimensão pública. A maioria de nós adora espetáculos e busca nos atletas o esforço e habilidade deles. Também somos instintivamente interessados em nossos colegas seres humanos de outras nações.

Saia justa: FIFA e COI

No caso do Brasil, os donos destes mega-eventos são a FIFA e A COI. Eles têm estado por aí há muito tempo, e têm praticamente poder monopolista no mercado, e também formidável controle de direitos de cópia.

Ambos têm estado auto-selecionando seus líderes (seniores) há anos, algumas vezes com resultados problemáticos. Por exemplo, não foi antes da imensa controvérsia sobre compra de votos no COI que os privilégios de membros deixaram de ser vitalícios – e ainda assim, apenas para alguns.

Ambas as organizações esperam por, e extraem, os melhores serviços de quem dá o maior lance. Quando os contratos de cidade/país sede são assinados, a sede formalmente concorda que um comitê organizador será formado.

Estes comitês são companhias limitadas que operam como uma franquia temporária do dono do evento. Manuais são postados, conhecimento transferido, e mentores da instituição-pai são enviados para prover orientação. Então, esta companhia limitada informa a cidade ou país sede onde o evento ocorrerá, junto de uma ampla lista de requerimentos.

Atenas

Em último caso, os donos do evento têm o direito de cancelar o contrato se os franquiados da sede não tiverem boa performance. A ameaça foi usada no caso da Grécia, quando o presidente do COI, Juan Antonio Samaranch, deu um cartão amarelo a Atenas devido aos atrasos. O resto, é história.

No fim, Atenas conseguiu fazer grandes jogos. Mas não houve planejamento pós-evento para as construções. E então veio a crise bancária, que forçou a Grécia a aceitar termos devastantes e cortes a privilégios, em troca de reduções de débito, consolidações e empréstimos.

Houve lá uma clara mensagem. Donos de mega-eventos estão ocupados demais com suas sedes atuais e futuras, para se preocuparem com problemas que eles podem ter tido uma parcela de responsabilidade de causar no passado.

E eles não irão comprometer os padrões de níveis de serviço deles. O dia seguinte é para a cidade/país sede encarar. Os donos de eventos já partiram para a próxima competição de candidaturas a sede.

Alguém aí falou “megalomania”?

Mas, argumentavelmente, ainda mais poderosos que os donos destes mega-eventos são os líderes políticos da nação-sede. Não é muito difícil para os políticos convencerem os cidadãos de que um evento como este é boa ideia por conta de ideais por trás destes eventos, como excelência esportiva, que são algo que as pessoas associam positivamente. A promessa de sucesso econômico e holofotes globais também são estonteantes.

Daí em diante, o palco é deles – como visto recentemente com o Vladimir Putin e as Olimpíadas de Inverno de Sochi. Sem nenhuma compreensão aparente de nossas interdependências, uma sede continuamente quer superar a outra na busca por distinção. E quanto mais os mega-eventos são locais de distinção, mais eles tornam-se o foco de ambição política sem limites.

Desde Atenas, nós temos visto uma tendência de definir estes eventos para economias emergentes. Beijing sediou as Olimpíadas de 2008, África do Sul a Copa do Mundo de 2010, e agora Brasil leva os dois.

De acordo com projeções em um recente Reporte de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, em 2050 Brasil, China e Índia serão juntos responsáveis por 40% da produção global, ultrapassando bastante a produção combinada projetada do G7 atual.

Então, enquanto os políticos brasileiros podem ter a ambição de sediar os melhores mega-eventos, talvez eles também tenham um peixe muito maior pra vender, em seu desejo de mostrar ao mundo que o Brasil pode ser uma superpotência.

O novo paradigma

Mas, o mundo mudou em 2008. E, após a mobilização de cidadãos da Primavera Árabe e o movimento Occupy, as vozes da maioria do mundo estavam altas e claras. Cidadãos em economias impactadas pela crise financeira tiveram oferecidos para si as pílulas amargas da austeridade, e com razão perguntaram porquê os bancos e as instituições globais não fizeram mudanças significativas nas suas práticas. Os brasileiros nas ruas estão dizendo mais ou menos a mesma coisa: “Não queremos saber desses eventos, queremos é que o governo melhore as nossas vidas”.

Eles sabem que há problemas prementes para se lidar. Os gastos em saúde no país são muito menores do quê a média regional, por exemplo. Talvez, eles não tenham complexos de inferioridade e sentem que não têm nada a provar.

O Brasil certamente arrisca-se a cair na categoria de sedes que permanecem em um caminho perigoso mesmo que os indicadores estejam dizendo para parar e reconsiderar – a Exposição de Vancouver em 1986 é um bom exemplo. O comprometimento do governo provincial foi tanto que ele recebeu vários salvamentos financeiros entre custos disparados, e terminou perdendo uma fortuna devido ao plano de negócios ser tão falho.

A questão para os líderes brasileiros é onde ir a partir daqui. Por mais doloroso quanto seria repensar sediar esses eventos, a alternativa pode simplesmente ser pior.

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