Vila Autódromo: a favela lutando contra o desenvolvimento olímpico do Rio de Janeiro

Autor: Adam Talbot, Pesquisador Doutoral em Sociologia do Esporte, na Universidade de Brighton.

Publicado originalmente no The Conversation em 12 de janeiro de 2016. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logoThe Conversation


Vila Autódromo é uma pequena favela situada na beirada dos desenvolvimentos do Parque Olímpico no Rio de Janeiro. O plano oficial para o parque garante que há espaço para a comunidade manter-se vivendo ali, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, prometeu que ninguém seria forçado a ir embora.

Ainda assim, desde que o Rio ganhou o direito de sediar os jogos, muitas casas na comunidade têm sido destruídas para abrir vaga para os trabalhos de construção. Em alguns casos, as expulsões tornaram-se violentas. Em outras, as habitações são demolidas sem aviso – por exemplo, a casa de uma residente foi destruída enquanto ela estava numa consulta médica. Estas expulsões – e os protestos e movimentos sociais que elas incitaram – formaram o foco de minha pesquisa de doutorado.

A favela situa-se em uma bela lagoa da Zona Oeste do Rio [(Lagoa de Jacarepaguá)], que desenvolve-se rapidamente. Ali tornaria-se imóveis privilegiados, alimentando especulação de que os residentes atuais estão sendo expulsos para abrir vaga na terra para re-desenvolvimento.

Politicamente falando, é fácil expulsar estes residentes por conta do estigma cercando as favelas. Theresa Williamson, diretora executiva da ONG Catalytic Communities, explicou para mim o impacto das percepções negativas do público sobre favelas, em uma entrevista:

[As percepções negativas] dão aos políticos um pretexto de fazerem como bem quiserem. Se você pensa que favelas são violentas por natureza, você irá pensar que qualquer policiamento é um bom policiamento. Se você pensa que as favelas são locais precários e horríveis de se viver, então você vai pensar que qualquer moradia pública é boa moradia.

Este estigma dá a impressão de que os residentes estariam felizes de serem realocados para novas moradias construídas sob o programa Minha Casa, Minha Vida do governo brasileiro – uma iniciativa de R$34 bilhões para construção de casas, que tem sido usada para realocar as pessoas removidas das favelas. De fato, é estimado que 80% das aproximadamente 700 famílias da Vila Autódromo aceitaram compensação e moveram-se para acomodação alternativa. Isto é um resultado da campanha de pressão por parte da cidade descrita pelos residentes como “guerra psicológica” e “terrorismo”, combinadas com o aumento da quantia de dinheiro oferecida como compensação.

Mas as moradias são com frequência de má-qualidade, e custos de vida essenciais como eletricidade são significativamente maiores. Isto levou a acusações de que o programa reproduz desigualdades sociais, ao invés de lidar com elas. E para as 40 famílias que permanecem, a favela é o lar. Um residente mostrou-me sua casa, one ele se casou há 10 anos, mostrando-me fotos com um sorriso em seu rosto e brincando com sua esposa. Sua casa foi marcada para desapropriação em março de 2015.

Resistência organizada

No topo disto, o governo do Rio enviou unidades de Polícia Militar para “pacificar” as comunidades de favela da cidade. Estas comunidades têm uma reputação de serem violentas e perigosas, e as autoridades incentivam estas percepções frequentemente mal-orientadas para justificar o uso de níveis bárbaros de força. Um vasto número de mortes ilegais pela polícia foram reportadas por organizações de direitos humanos.

Juntamente aos residentes locais, tais organizações desempenharam um papel significativo em documentar as violações de direitos humanos ao seguir do evento. Por exemplo, o Comitê Popular para a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Rio de Janeiro recentemente lançou seu quarto dossiê de abusos de direitos humanos, cobrindo o ano de 2015. Similarmente, cobertura diária detalhada pelo site de notícias RioOnWatch ajuda a prestar contas da cidade e encorajar os residentes.

As percepções mal-orientadas sobre as favelas do Rio, e o intenso foco do governo em conquistar sucesso de curto-termo em alguns dias em agosto, levaram-no a buscar esta política de expulsões forçadas e pacificação. Mas há outra forma. Ao celebrar a vibrante natureza das comunidades das favelas, a cidade poderia tornar a Vila Autódromo parte do show. Os residentes são incrivelmente amigáveis e hospitaleiros, e recentemente foram hospedeiros de eventos como festivais culturais e torneios futebolísticos.

Ao ver as favelas primariamente como bens culturais, a cidade poderia incorporar a Vila Autódromo em seus planos para o Parque Olímpico, e usá-la para exibir a criatividade e espírito do Rio, durante aqueles poucos dias em agosto quando o mundo vem jogar. Não é tarde demais para a cidade mudar, para prover upgrades para os residentes na Vila Autódromo, e usar a comunidade para mostrar as favelas para o mundo através de lentes diferentes, positivas.

Em sua excelente análise do provável legado do Rio 2016, o acadêmico Jorge Knijnik concluiu que a única esperança é a sociedade civil combater as injustiças surgindo do ambiente sociopolítico turbulento do Brasil. Mas mais pode ser feito. Os ativistas que encontrei no Rio de Janeiro precisam de suporte de cidadãos por todo o mundo.

Qualquer um que deseje ver Jogos Olímpicos justos – jogos que cumpram as promessas de paz e respeito feitos na Carta Olímpica – podem adicionar suas vozes àqueles já perguntando-se “Olimpíadas para quem?”. Ao compartilhar as histórias sobre violações de direitos humanos nos preparativos para os jogos, e garantindo que as vozes dos moradores do Rio são ouvidas, pessoas de todo o mundo podem ajudar a alcançar um legado social maior para as Olimpíadas.

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