Rio de Janeiro: demolições de favelas ecoam as dos EUA, no passado

Autora: Lisa Goff, Professora Universitária de Inglês na Universidade de Virgínia.

Publicado originalmente no The Conversation em 26 de julho de 2016. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logo The Conversation


Os 500mil turistas esperados para as Olimpíadas de Verão 2016 no Rio de Janeiro verão uma cidade estonteante, quilômetros de praias brilhantes, e um Parque Olímpico com 9 instalações, todas presididas pela estátua imponente do Cristo Redentor a observá-las do Morro do Corcovado.

Mas outra característica do Rio, igualmente famosa, – seus quilômetros e quilômetros de vibrantes barracos urbanos conhecidos como favelas – não estarão em exibição. Isto deve-se à prefeitura do Rio ter gasto meses expulsando moradores, demolindo seus barracos e construindo quilômetros de muros nas beiras das estradas para esconder as favelas das vistas dos visitantes olímpicos que chegam.

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Favela da Rocinha – Rio de Janeiro.chensiyuan/Wikimedia Commons, CC BY-SA

Rio não é a única cidade classe-mundial a esconder ou desmantelar suas favelas; pessoas pobres são consideradas desagradáveis às vistas onde quer que vão, e as cidades regularmente exercem seus poderes de expurgar barracos improvisados da paisagem. Demolições de uma favela no norte da capital da África do Sul, Pretória, deflagraram tumultos mais cedo neste ano. Muitas bidonvilles na França – mais recentemente em Calais – foram demolidas em nome da ordem e segurança públicas. Em 2008, o governo de Ruanda demoliu a última favela em sua capital, Kigali.

Os Estados Unidos (da América) não são exceção. Muitos pensam que favelas são um problema do mundo em desenvolvimento. Mas os EUA têm sua própria história não-contada de favelas, que detalho em meu livro recente, “Shantytown USA: Forgotten Landscapes of the Working Poor” [tradução livre: EUA Favelado: Paisagens Esquecidas dos Trabalhadores Pobres].

Ao passo que algumas persistem hoje na forma de parques de trailers e acampamentos de sem-teto, seu auge foi entre a década de 1820 e 1940, quando salpicaram pela nação, provendo morada para os trabalhadores pobres, desempregados, e destituídos. Mas, como no Rio, os políticos dos EUA que declararam estar melhorando a vida dos moradores acabaram por desalojar a maioria destas comunidades improvisadas e decrépitas que, de muitas maneiras, foram refúgios para os pobres.

Comunidades vastas e vicejantes

Em meu livro, eu defino favelas como comunidades de abrigos de família única construídas por trabalhadores pobres para si mesmos com os materiais à mão. Isto separa-as de habitações construídas para os pobres por outros, como projetos de moradias financiadas pelo governo.

É difícil ter uma percepção do quê os residentes de favelas pensavam de si mesmos, mas canções e músicas populares do século XIX sugerem que eles viam as favelas como símbolos de hospitalidade, engenhosidade, e auto-determinação.

Veja “O Barraco do Irlandês”, uma música popular de 1859 que reflete sentimentos de liberdade e independência:

The Irishman’s Shanty O Barraco do Irlandês
Did you ever go into an Irishman’s shanty? Você já foi no barraco do Irlandês?
Ah! there boys you’ll find the whiskey so plenty, Ah! Caras, lá vocês vão achar o whisky tão abundante,
With a pipe in his mouth there sits Paddy so free, Com um cachimbo em sua boca, lá senta-se Paddy tão livre,
No King in his palace is prouder than he. Nenhum Rei em seu palácio é mais orgulhoso que ele.

Os trabalhadores que construíram as favelas com frequência planejaram casas pequenas de família única, com quintais, varandas e cercas de madeira. Estradas e caminhos nas favelas serpenteavam, mergulhavam e escalavam de acordo com a topografia, tornando-as difíceis de serem atravessadas por forasteiros. Este planejamento imprevisível – que eu chamo de “planejamento oposicional” – tornou as favelas áreas de privacidade e proteção, lugares onde os abrigados poderiam mais facilmente moverem-se com liberdade e desfrutarem de uma medida de auto-governança.

As favelas também foram lugares para trabalhar: leiterias, lavanderias, hortas comerciais, e serviços de reboque operavam dentro das comunidades. Os residentes iam a igrejas, votavam e iam à corte proteger seus direitos de propriedade.

Os abrigos, em si mesmos, variavam consideravelmente, de cabanas de barro a cabanas de tabuinhas estilo-tenda no século XVIII, a estruturas de madeira e toras no XIX, com frequência (mas não sempre) construídas por imigrantes ou Afro-Americanos. Elas comumente se localizavam em áreas baixas e pantanosas, ou áreas altas e pedregosas perto do local de trabalho dos proprietários. Surpreendentemente, os abrigados em barracos não necessariamente eram invasores: muitos, se não a maioria, dos abrigados em favelas do século XIX pagavam arrenamento da terra onde suas cabanas se localizavam.

No século XX, as forças por detrás do desenvolvimento de favelas mudaram um pouco. A Grande Depressão resultou em milhares de desempregados e sem-teto; largados à própria sorte, estas pessoas construíram barracos de telhas metálicas onduladas, linóleo, caixas de papelão e peças automotivas. Chamadas de Hoovervilles (em referência ao então-presidente Herbert Hoover), estas favelas foram extensivamente cobertas pela mídia.

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During the Great Depression, shantytowns – dubbed Hoovervilles – began appearing in many urban areas.Berenice Abbott/Wikimedia Commons

A visão de cima

Inicialmente, as classes média e alta dos EUA viram as favelas como uma condição necessária – porém temporária – do rápido desenvolvimento industrial no século XIX.

Mas os trabalhadores pobres nem sempre queriam mudar-se. Aqueles que permaneciam, e os recém-chegados que juntavam-se a eles, criaram favelas que duraram por décadas em cidades como Nova York, Chicago, Atlanta e Washington D.C. Estas comunidades auto-construídas cobriam amplas áreas de grandes cidades, incluindo uma extensão de 20 quarteirões da 8ª Avenida na Cidade de Nova York, muito da orla do Brooklyn e o que é agora Dupont Circle em Washington D.C.

Em uma nação atarefada em escrever códigos de construção e formas padronizadas de moradia, as favelas tornaram-se embaraços cívicos, impedimentos para o progresso e as barreiras do embelezamento das grandes cidades estadunidenses – as mesmas cidades que os habitantes das favelas ajudaram a construir.

Suas ferrenhas insistências em permanecer incomodaram e assustaram seus vizinhos em melhor situação. Observadores de classe média com frequência pensavam que favelas eram depravados e preguiçosos “antros de vícios e miséria”. Os jornais e revistas os mostravam como criadouros de crime e violência, lugares que eram “estrangeiros”, não-civilizados, e mesmo bestiais. Haviam brechas de nostalgia na década de 1880 (um artigo no Scribner’s elogiou a “liberdade má-reputada” das favelas) e novamente na década de 1930, quando filmes como “Sullivan’s Travels” e “My Man Godfrey” exaltaram o homem comum. Mas, no geral, a classe média denegria as favelas e seus moradores como “não-Americanos”.

Eliminando a favela

As favelas não desapareceram após a Grande Depressão, mas zoneamento e códigos de construção cada vez mais apertados, combinados com esquemas de moradias públicas que proviam habitações ostensivamente melhores para os pobres, limitou drasticamente o crescmento das favelas.

Nestas políticas de boas intenções, nós vemos os direitos e independência dos pobres sendo suprimidos. Antes, os pobres tinham a habilidade de exercer uma medida de controle sobre onde moravam; os barracos, apesar de modestos, eram residências de família única que com frequência localizavam-se perto ao local de trabalho dos habitantes. Agora, disseram aos pobres que estes deveriam navegar através de entraves burocráticos enquanto eram pastorados para dentro de apartamentos multi-família localizados em seções de cidades que com frequência eram muito mais distantes de seus locais de trabalho.

1869, Harper's, The Squatters of New York—scene near Central Park
‘The Squatters of New York.’D. E. Wyand; wood engraving in Harper’s Weekly, June 26, 1869, p. 412. Library of Congress Prints and Photographs Division

Por conta dos residentes de favelas sentirem um senso de comunidade tão forte quanto o de seus vizinhos de classe média ou alta, eles consistentemente – e algumas vezes violentamente – resistiram a tentativas de demolição de suas casas.

O efeito podia ser engraçado. Em uma ocasião em 1880, o jornal The New York Times reportou que um sherife delegado distribuindo ordens de despejo ao longo da 81ª Rua de Manhattan “foi capturado, e uma lata de leite, cheia até a metade, virada em sua cabeça como um chapéu”. De outras vezes, os ataques foram mais sérios, tal como quando os residentes soltaram os cachorros “mantidos para o propósito de assediar oficiais de justiça”.

Mas a polícia foi responsável pela maior parte da violência, tal qual uma vez em que um sherife delegado “amarrou um residente, carregou-o por uma distância, e, atrelando cavalos a um cabo jogado em volta do barraco, jogou-o no chão”. Em outra instância, um residente que recusou-se a sair foi literalmente dinamitado para fora de seu barraco. De acordo com o The New York Times, “os trabalhadores de detonação de rochas finalmente se aproximaram tanto que eles tiveram receio de destruir as vidas de quem estava dentro”.

Mesma história, cidade diferente

Estas descrições dos jornais estadunidenses do século XIX são bem similares a reportes de mídia a respeito das remoções forçadas no Rio durante os preparativos para a Olimpíada deste verão. Em ambos os casos, os pobres se agarraram às habitações construídas por si mesmos enquanto se defendiam de um estado que declarava-se comprometido com melhorar a vida deles.

O Rio ressoa, em ainda mais uma forma, com as favelas dos EUA: os residentes têm repetidamente rejeitado ofertas do governo por “melhores” moradas em lugares muito distantes de suas vizinhanças locais.

Em 1931, residentes de uma favela em Phoenix construída com “pedaços de papelão, estanho velho, pedacinhos de carpete ou sacos de grãos – qualquer coisa que fosse possível” surpreenderam trabalhadores da Cruz Vermelha ao recusarem ofertas de melhores moradas. Naquele mesmo ano, os residentes de uma favela do Brooklyn conhecida como Hoover City foram solicitados a explicar sua preferência pela vida na favela; eles citaram um sentido pessoal de liberdade, “independência, e a vantagem muito prática de viver próximo ao trabalho”.

Estes mesmos valores parecem ter motivado 20 dos 600 residentes originais da favela Vila Autódromo a resistirem à pressão governamental crescente de deixarem suas favelas próximas ao Parque Olímpico. Após meses, às vezes de resistência sangrenta, eles arrancaram uma promessa do prefeito do Rio de que suas casas serão reconstruídas no mesmo lugar.

Como suas contra-partes estadunidenses décadas antes, os oficiais do governo brasileiro, e desenvolvedores privados, têm rebaixado os pobres como tática de negar a eles seus direitos à cidade. No ano passado, Carlos Carvalho, o magnata imobiliário brasileiro que era dono da maior parte das terras aonde o Parque Olímpico foi construído, apontou o “novo Rio” que iria emergir em adiantamento às olimpíadas – um novo Rio para a “elite de bom gosto”, cheio de “moradas nobres, não moradas pobres”.

Mais cedo em minha pesquisa para o livro “Shantytown USA”, eu passei por atas de uma reunião da década de 1830 do Conselho de Vereadores Adjuntos de Manhattan. Membros que decidiram demolir quarteirões e mais quarteirões de barracos no centro da cidade, indagaram-se todos de repente: “Para onde irão os pobres?”.

De fato, aonde, seja na Nova York do século XIX ou no Rio de Janeiro do século XXI? Em 2016, mais de 77 mil residentes de favelas foram expulsos de suas casas para abrir vaga para o “novo Rio” construído para os visitantes olímpicos. Muitos foram realocados para habitações construídas pelo governo, mas não todos – e milhares condenaram a realocação.

Para aonde os pobres podem ir? Dada a escolha, muitos escolhem favelas ao invés de outras opções disponíveis. Favelas são a prova da inabilidade das instituições atenderem à demanda de moradias a preços acessíveis para os pobres. Mas eles também expressam uma visão de comunidade dos trabalhadores pobres que eleva valores de engenhosidade e reinvenção por sobre a fixação da classe média em propriedade e lucro.

Para onde devem ir os pobres? Se ao menos a resposta coubesse a eles…

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