Olimpíadas: 5 razões para sua cidade não querer sediar

Autores: Bryan C. Clift, professor universitário do Departamento de Saúde, Humanidades e Ciências Sociais da Universidade de Bath e Andrew Manley, professor universitário do Departamento de Saúde da Universidade de Bath.

Publicado originalmente no The Conversation em 11 de janeiro de 2016. Leia o artigo original.%22The Conversation%22 logoThe Conversation


A possibilidade de hospedar qualquer mega-evento – especialmente as Olimpíadas – é causa de sérias considerações. Em níveis local, nacional e internacional, a discussão modela-se em torno de duas questões-chave: vale a pena? Se sim, pra quem?

A questão de valer a pena não limita-se ao custo – apesar de que certamente permanece como fator crucial. Ao invés disto, existe uma série de preocupações inter-relacionadas sobre como mega-eventos podem perturbar cidades, e distrair de agendas de planejamento de longo termo. Candidaturas para sede das Olimpíadas de 2024, tanto por Boston quanto Hamburgo foram canceladas por estas razões. Enquanto isto, o Rio de Janeiro está demonstrando quão desafiadoras as preparações para as Olimpíadas podem ser.

Aqui, iremos olhar mais de perto cinco razões-chave do porquê uma cidade pode ser relutante para sediar as Olimpíadas.

1. Custo total

Tiremos o óbvio do caminho. Aqui estão os custos estimados das últimas 4 Olimpíadas, e o custo projetado da próxima no Rio.

Enquanto o custo exato de qualquer Olimpíada é difícil de definir, e é com frequência um ponto controverso, os últimos três jogos testemunharam investimento privado e público sem paralelos. Beijing, Londres e Rio embutiram, em seus orçamentos, planjamentos de “legado” de maiores durações, para tentar garantir que o investimento de sediar os jogos continuarão a pagar-se por anos após o evento.

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Legados olímpicos são difíceis de alcançar.Dany13/Flickr, CC BY

Tais promessas de legado com frequência promovem re-desenvolvimento da infraestrutura, melhores sistemas de transporte, crescimento econômico e criação de empregos, projetos de renovação e regeneração urbanas, e participação melhorada em desenvolvimento sustentável e atividades físicas. No Rio, os desenvolvimentos planjeados da infraestrutura estão definidos para continuar até 2030.

A exigência financeira de tais propostas – e o planejamento e implementação subsequentes – não são nada menos que enormes. Sem dúvida, o custo mais significante relaciona-se com o (re)desenvolvimento da infraestrutura urbana. Isto leva-nos a nosso segundo desencorajamento.

2. Desafios de infraestrutura

Sediar um mega-evento sempre envolve renovação e regeneração urbanas. Ainda assim, desenvolver os estádios esportivos, as acomodações e as redes de transporte para lidarem com números ampliados de turistas e atletas é tudo, menos direto. Antes de refazer a paisagem urbana, os planejadores devem saber quais locais deverão ser re-desenvolvidos, para quem, e para qual fim.

Claramente, atender às demandas do Comitê Olímpico Internacional (COI) é uma prioridade. Mas, argumentavelmente, é a menos significante. Ao invés disto, os planejadores buscam capitalizar no espaço urbano ao re-imaginarem a cidade como um ambiente recreativo – um recurso para turismo e consumismo. Espaços de varejo, festival, esporte, lazer, hotel e patrimônio estão no núcelo desta visão.

Enquanto melhorias ao transporte podem prover benefícios para a população, estes re-desenvolvimentos apenas oferecem esperança para mais dólares de turistas, e um pequeno número de empregos de baixo pagamento. Um exemplo é o Estádio Mário Filho (mais conhecido como o Maracanã) no Rio, que passou por mais de US$500 milhões em renovações em adiantamento para a Copa do Mundo de 2014. Outrora jogado na luz populista da década de 1950 para comunicar as ideias da democracia, o Estádio agora foca-se em atrair um tipo diferente de pessoa: o turista internacional orientado a consumismo.

Um dos desafios centrais de sediar um mega-evento é o que fazer com a nova infraestrutura após os atletas e turistas irem-se. Algumas cidades-sede – como Barcelona – fizeram bom uso dos estádios delas, mas outras estão repletas de elefantes brancos. Montreal, Sidney, Atenas, Beijing e Vancouver todas têm sua parcela de construções com fracassos pós-olímpicos.

A Copa do Mundo de 2010 na África do Sul oferece um aviso particularmente forte: os estádios continuam a apodrecer por desuso. E o Brasil parece destinado a repetir os mesmos erros, já que o país luta para encontrar um propósito para suas construções da Copa do Mundo de 2014. Elefantes brancos são lembretes altamente visíveis de que mega-eventos podem não valer o preço. Mas, existem efeitos colaterais ainda mais insidiosos que são com frequência menosprezados.

3. Violações de direitos humanos

Construir nova infraestrutura em uma cidade significa destruir áreas urbanas estabelecidas. Quando isto ocorre, populações locais e comunidaes são com frequência dispersadas e desalocadas. Para abrir vaga para a infraestrutura das Olimpíadas de Beijing em 2008, estima-se que 1,5 milhão de pessoas foram expulsas à força de suas casas, com compensações mínimas. As vizinhanças foram destruídas e os residentes foram removidos para a periferia da cidade, longe de amigos, família, e locais de trabalho.

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Protestos olímpicos.Krus Krug/Flickr, CC BY-NC-ND

No Rio, o processo de expulsão à força tomou um ethos militarizado, com as Unidades de Polícia Pacificadora tentando controlar um certo número de favelas da cidade. Demolição, remoção e arrasamento de patrimônios mundiais da Unesco todos constam na preparação para os jogos.

Medidas repressivas dentro da China e Tibet nos jogos de 2008, problemas de direitos LGBT cercando os Jogos de Inverno de 2014 em Sochi, mortalidade nos campos de construção para a Copa do Mundo no Qatar em 2022… Todos apontam para problemas persistentes de direitos humanos que, com frequência demais, acompanham os mega-eventos. Ao invés de representar unidade e diversidade, parece-me que os Jogos Olímpicos têm começado a significar opressão e exclusão.

4. Medo e segurança

Em muitas cidades-sede, projetos de renovação publicamente financiados, mas de propriedade privada, têm sido alavancados para impor medidas de vigilância aumentada. Por exemplo, Londres 2012 viu o aumento de arquitetura “defensível”, que restringe o acesso e atividades daqueles tidos como “indesejáveis” – particularmente skatistas, protestadores, e sem-teto – em áreas recém-desenvolvidas.

A Strand East Community de Londres – desenvolvida pela Vastint Holding B.V., do grupo corporativo IKEA de desenvolvimento residencial, adiantando as Olimpíadas de 2012 – é característica da propensão da cidade em direção à “vida em enclave”. Isto significa uma alta presença de segurança, que aceita aquelas com capital para investir, e rejeita aqueles tidos como ameaças para a proteção e segurança de seus residentes. Tais projetos têm causado o estilhaçamento dos espaços urbanos. Aqueles que carecem do desejo ou meios de se engajar na economia de consumidores são estigmatizados como “indesejados”.

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“You shall not pass”.diamond geezer/Flickr, CC BY-NC-ND

Este processo de enseguramento tem sido abastecido pelo medo de ataques em eventos populares de esportes, como o bombardeamento da Maratona de Boston em 2013 e o alvo da Stade de France de Paris em novebro de 2015. Comitês de planejameto têm recebido como dever a tarefa impossível de prevenir tais ataques, embutindo segurança na infraestrutura, planejamento, organização e nas práticas associadas com os mega-eventos.

5. Prestígio internacional

Sediar um mega-evento pode criar burburinho, oferecer a chance de uma mudança de visão para melhor, ou angariar prestígio internacional. Mas também pode atrair atenção indesejada e manchetes ruins. Nações-sede com frequência obscurecem violações de direitos humanos, mas encontrarão mais dificuldade em gerenciar os problemas políticos e econômicos de alto-padrão associados com organizações internacionais como o COI. Por exemplo, escândalos políticos têm recentemente manchado as reputações de corpos esportivos como a FIFA e a IAAF.

Ao estarem mais atentos às potenciais ciladas de sediar mega-eventos, os residentes estarão em melhor posição para engajarem-se no processo de propostas – ou resisti-lo, tais como os envolvidos na campanha “No Boston Olympics”. Ao invés de agarrarem as oportunidades de sediar as Olimpíadas, as autoridades municipais estão ficando melhores em considerar como os jogos podem de fato caber em suas prioridades – ou se vão de alguma maneira. Isto somente pode ser bom.

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