Ferguson: policiamento militarizado não era a resposta para os problemas

Autor: Chris Cocking, pesquisador de comportamento de multidões na Universidade de Brighton.

Publicado originalmente no The Conversation em 19 de agosto de 2014. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logoThe Conversation


A cidade de Ferguson, Missouri, têm visto [(em 2014)] 10 dias de desordem praticamente todas as noites, após a morte do adolescente negro Michael Brown pela polícia. A decisão de enviar a Guarda Nacional não sufocou a desordem, e na verdade, pode estar agravando a situação.

A sociedade, com frequência, tem uma tendência de temer multidões, e a presumir que elas precisam ser combatidas pela força, mas é na verdade esta força que pode fazer situações tensas transbordarem para violência. Em muitos casos, a força é a causa do problema, não a solução.

Ferguson_Day_7,_Picture_25
Polícia em Ferguson, 2014. Tá se sentindo mais calmo agora?
Fonte: Wikimedia Commons.

Controlando a multidão

Durante a noite de 18 de agosto [de 2014], 31 protestadores foram presos em Ferguson, e observadores da Anistia Internacional foram ditos para irem embora.

As polícias colocadas no anoitecer em Ferguson estavam fortemente armadas com uma gama de armas sofisticadas. Elas tinham gás lacrimogêneo, dispositivos sônicos, balas de borracha, e granadas de atordoamento, todas estas fazendo os policiais parecerem mais com soldados do quê civis.

Estes dispositivos são armas indiscriminadas de controle de multidões, desenhadas para dispersar e não para diferenciar os protestadores. Todo mundo está na linha de fogo. É uma aproximação que já há muito têm sido questionada por pesquisadores de comportamento de multidões. Muitos têm argumentado que tratar multidões com força e indiscriminadamente com frequência leva a uma escalada da desordem, ao invés de acalmá-la. Se uma multidão pensa que ela está sendo tratada injustamente, ela vai reagir contra este tratamento, o que por sua vez causa mais respostas de força da polícia, resultanto em um ciclo de desordem escalante.

Descrevendo a multidão

A linguagem usada para descrever os protestos em Ferguson também refletem nossa desconfiança generalizada de multidões.

O Capitão de Polícia de Ferguson, Ron Johnson, proveu um ótimo exemplo desse problema quando ele disse, em uma conferência com a imprensa, que “um pequeno número de agitadores violentos … esconde-se na multidão e então tenta criar o caos”. Eu não vi nenhum vídeo de câmeras de vigilância confirmando esta afirmação, e eu veria problema com a premissa por trás disto de qualquer maneira. Ele implica que uma minoria de pessoas com intenções maliciosas é responsável por incitar a maioria pacífica a agir violentamente. Isto assume que os membros da multidão são facilmente influenciáveis por outros a fazer coisas que eles não fariam normalmente. Se multidões fossem tão facilmente influenciáveis por outros, porquê elas não dão ouvidos aos avisos da polícia para dispersarem?

A ideia de que as multidões são ingênuas e acríticas de qualquer influência social é largamente um mito. Se a violência ocorre, ela raramente se deve a minorias violentas que tenham incitado a multidão. É muito mais provável ser por causa da polícia ter tratado a multidão de forma indiscriminada. Isto une psicologicamente membros da multidão para agirem juntos contra o que são percebidos como ataques ilegítimos contra eles.

Um estudo das figuras apresentadas pela mídia e políticos para ilustrar criminalidade “irracional” durante os tumultos de 2011 no Reino Unido conta uma história similar. As estatísticas usadas para descrever estes eventos foram frequentemente seletivas ou mal-representadas, e as conclusões desenhadas não eram suportadas por examinação detalhada do quê atualmente aconteceu.

Residentes de Ferguson também pareceram rejeitar essa narrativa de criminalidade, e quem esteve de fato envolvido nos eventos recentes na cidade fez muito mais relatos positivos. A BBC reportou como algumas pessoas no local percebiam uma atmosfera quase como de festival em Ferguson, e descreveram uma sensação de “amor e suporte” na multidão. Uma foto circulando no Twitter até mesmo parece mostrar membros de gangues rivais, vestindo bandanas de cores diferentes, parados juntos para proteger uma loja.

Desentendendo a multidão

Isto também mostra que protestadores estão colocando limites no comportamento da multidão em Ferguson. Isto mina outro mito comum sobre desordem em multidões – que, quando os tumultos começam, tudo vale e o pensamento de manada toma o controle. Evidências dos distúrbios em Londres sugerem que as multidões comportaram-se de formas complexas. Pessoas que estavam lutando contra a polícia paravam para proteger lojas dos saqueadores, e, apesar das hostilidades com a polícia, as multidões raramente atacariam bombeiros ou paramédicos.

A desordem em Ferguson não pode ser explicada culpando uma minoria de indivíduos mal-intencionados. E responder aos protestos legítimos com policiamento e força cada vez mais militarizados vai apenas servir para indispor ainda mais as pessoas de Ferguson.

Respondendo a estes eventos com força tão avassaladora é uma medida baseada em uma desconfiança fundamental do comportamento de multidões. A polícia dos EUA está provavelmente entre as mais pesadamente armadas no mundo, mas isto não impede a desordem urbana de acontecer. Algo está claramente muito errado quando cidadãos dos EUA em 2014 estão falando abertamente de sua própria polícia como uma força de ocupação. Nós temos de olhar para o contexto social mais amplo quando eventos como este acontecem e escalam. Soluções de longo termo não vão ser encontradas enviando forças policiais em trajes paramilitares como estávamos vendo nas ruas de St Louis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s