Militarização da polícia nos EUA: legado da paranoia da guerra fria

Autora: Joy Rohde, Professora Assistente de Políticas Públicas na Universidade de Michigan.

Publicado originalmente no The Conversation em 22 de outubro de 2014. Leia o artigo original. %22The Conversation%22 logo The Conversation


Em agosto [de 2014], a polícia que confrontou os manifestantes em Ferguson, Missouri, parecia mais com soldados do quê ‘oficiais da paz’. Cidadãos intimidados por força policial camuflada armada com gás lacrimogêneo e lançadores de granadas, veículos blindados, e rifles com miras óticas de longo alcance. Desde então, oficiais do governo e a mídia têm culpado a militarização da polícia, iniciada em 1997 por um programa do Departamento de Defesa, e que provê à polícia gratuitamente a sobra dos equipamentos militares. Mas as raízes do policiamenteo militarizado são muito mais antigas.

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Polícia em Ferguson, 2014.
Fonte: Wikimedia Commons.

Para encontrar as origens do policiamento militarizado moderno, nós precisamos olhar para a Guerra Fria. Começando na década de 1950, o Departamento de Defesa gastou milhões de dólares em estudos que tentavam explicar como os comunistas ganharam seguidores ao redor do mundo.

Pesquisadores trabalhando em “think tanks” financiados pelas forças armadas, como RAND e Escritório de Pesquisas de Operações Especiais, examinaram como insurgentes na América Latina e Sudeste da Ásia atraíam pessoas para tentar derrubar governos apoiados pelos EUA. Esta pesquisa foi guiada pela crença de que as atividades comunistas no exterior ameaçavam a segurança nacional dos EUA. Os pesquisadores das forças armadas escreveram dezenas de reportes que explicaram como movimentos comunistas clandestinos funcionavam. A recomendação deles: o governo dos EUA deveria criar programas de treinamento para as polícias estrangeiras. Tópicos sugeridos para instrução incluíam: métodos de vigilância, técnicas de controle de protestos, e táticas paramilitares.

Então, no fim da década de 1960, os pesquisadores das forças armadas fizeram uma descoberta lucrativa: o Departamento de Justiça e os departamentos de polícia locais iriam pagá-los para trazer a pesquisa deles para os EUA. Os pesquisadores aplicaram o conhecimento deles sobre comunistas estrangeiros, numa tentativa de ajudar a polícia a lidar com os protestadores no solo dos EUA. Experts das forças armadas aconselharam a polícia sobre como conter demonstrações de direitos civis reivindicando igualdade econômica e política, e como controlar manifestações contra a Guerra do Vietnã.

Ao trazer para os EUA ferramentas e ideias criadas para controlar movimentos políticos estrangeiros, os pesquisadores das forças armadas trataram os dissidentes dos EUA da mesma forma que eles trataram os inimigos nacionais no exterior. A linguagem que eles usaram nos reportes deles mostrou seus pressupostos: um estudo financiado pelo Departamento de Justiça chamou os estudantes ativistas de “revolucionários, encrenqueiros conhecidos, e outros elementos anti-sociais”.

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Pesquisas do Pentágono justificaram o uso de gás lacrimogêneo por forças policiais locais, como estes policiais em Selma, Alabama, em 1965.

Esta pesquisa tratou dissidência como deslealdade. Ela tratou protestos como ameçaca à segurança e estabilidade nacionais, e assumiu que os protestos, se deixados descontrolados, podem desestabilizar o governo. Então, para que as manifestações não escalassem para revoluções, os pesquisadores disseram aos aplicadores das leis para usar gás lacrimogêneo quando os protestadores se reunissem. Isto já era prática comum em muitas localidades, mas os experts das forças armadas deram à polícia uma justificativa acadêmica para estes tipos de ações pesadas.

Comunidades de minorias com frequência tiveram de suportar o peso destas práticas. A ideia de que ativistas dos direitos civis eram similares a inimigos estrangeiros da nação dificilmente foi um salto para os experts do Pentágono [(Pentágono = Departamento de Defesa)]. Eles avisaram repetidamente que “organizações negras clandestinas” – que é como eles descreveram organizações de direitos civis – poderiam estar planejando “amplas campanhas de violência”. Seu medo máximo era a guerra racial.

Os aplicadores de leis dos EUA escutaram muito bem estas vozes do Pentágono. O FBI monitorou o Martin Luther King Jr. por mais de uma década, em uma busca infrutífera por conexões comunistas. E a CIA executou a Operação CHAOS, um programa de inteligência que tentou descreditar proeminentes ativistas estadunidenses dos direitos civis e anti-guerras, buscando por mestres fantocheiros comunistas no exterior.

Nenhuma das operações encontrou o que estava em busca, mas a suspeita sobre os movimentos de protesto continua.

Pressupostos sobre protestos continuam em jogo nos Estados Unidos. Dos protestos de 1999 em Seattle contra a Organização Mundial do Comércio, ao Movimento Occupy (2011 em diante), até Ferguson [(o artigo foi escrito em 2014)], a polícia tem continuado a confrontar protestos pacíficos com exibições pesadas de força. Minha pesquisa sugere que eles não fazem isso simplesmente porquê eles têm os equipamentos: eles fazem isto, pois, desde a década de 1960, a polícia com frequência tem olhado para movimentos sociais domésticos como ameaças para a segurança nacional e estabilidade doméstica.

De acordo com minha pesquisa, a militarização é uma mentalidade. Ela é uma tendência a ver o mundo através das lentes da segurança nacional, uma tendência a exagerar ameaças existentes. No policiamento, isto pode manifestar-se como uma crença de que segurança física e calma são mais importantes que liberdades civis e que dissidência pode ser perigosa para a segurança nacional. Esta mesma mentalidade encoraja a polícia a ameaçar populações protestando – e em particular minorias populacionais – como se elas pudessem minar o governo.

Tudo isto leva à questão: o que é mais perigoso para a democracia – a violência em pequena escala que pode ocasionalmente acompanhar um protesto, ou a força policial militarizada?

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